Texto de Marcelo Campos (2010)

A Vulnerabilidade dos Corpos
por Katia Canton (2008)

Entrevista do artista a
Maria Alice Milliet (2004)

O Avesso do Coração Catálogo Banco do Brasil

Insensato Coração
Catálogo Banco do Brasi
l

Hildebrando de Castro

A presença da pintura define territórios. Na arte, a dominação do espaço e da paisagem foi a mais recorrente tentativa de forjar ambientes exteriores e interiores em pequenas metragens de linho. Nichos arquitetônicos apareciam, nas pinturas, nos informando o preciosismo dos estudos técnicos criados não por um pintor, mas por um arquiteto: Filippo Brunelleschi. Fazer pintura, hoje, é se posicionar num território devastado pelas concepções anti-formalistas da pós-modernidade. Ainda assim, o território da pintura resiste e nos ilumina, tornando visíveis não mais formas autônomas. Vemos em pintura, como definiu Richard Wollheim, como podemos “ver em” quaisquer materialidades da arte.

Hildebrando de Castro apresenta, na sua mais recente exposição na Galeria Laura Marsiaj, um conjunto de pinturas interessado em nichos, em arquiteturas. Como assunto recorrente deste conjunto, podemos observar: janelas, fenestras, brise-soleils. A arquitetura funciona, assim, tal qual na história da pintura, como sintoma de aplicação da perspectiva. Na repetição geométrica, o artista empreende pequenas modificações no abrir e fechar das platibandas. Ao mínimo giro, o reflexo do sol cria consideráveis alterações para a representação pictórica, seja alterando as linhas de fuga do desenho, seja mudando, ativada pelos efeitos de luz e sombra, a paleta de cor. A pintura de Hildebrando de Castro, neste e em outros conjuntos, se interessa pelo realismo tangenciando a fotografia. Assim, percebemos, imediatamente, a aproximação de pólos opostos, ou melhor, distintos entre si: geometria e ilusão. Sabemos que a vertente abstrato-geométrica para as artes, advinda das vanguardas modernistas, pretendia uma universalidade das formas. Para tanto, uma das primeira atitudes foi desterritorializar o contexto social ao qual pertenceriam artistas e escolas. A arte seria o próprio território, autônomo às ilusões retinianas, apartado das contingências do pertecimento. Hildebrando, aqui, nos apresenta uma pintura aliada aos efeitos do sol sobre um prédio em Brasília. Desta observação, o artista se embevece pela dança de brise-soleis. Assim, credos e crenças conflitantes são hibridizados nas pinturas. Fundem-se a herança construtiva - que pretendera reduzir a pintura à planaridade - com a sedução fotográfica, trazendo efeitos a partir das leis da perspectiva e do claro-escuro renascentistas. Somos, então, desafiados pelo conceito de imitação, mimese, que, segundo Jean-François Groulier, é a principal homenagem das artes à filosofia. Platão expulsa o poeta, um ilusionista nos ofertando simulacros, Aristóteles responde a isso com a emblemática frase "a arte imita a natureza".  Hildebrando, então, se coloca como um pintor sofista, interessado nas fáceis atribuições visuais, na imitação, nas "marcas", para usar um conceito de Wolheim, a partir das quais o realismo nos faz ver novamente, reconhecer, familiarizarmo-nos com simulacros de janelas. Para deleite do pintor, em vez de imitar a natureza, Hildebrando imita a fotografia, tal qual Gerard Richter.

Hildebrando de Castro, ainda que imite paisagens, cachoeiras, “a obra dos céus”, o faz a partir de fotografias, simulacros, cometendo o pecado original, pois não acredita numa idéia sem imagem, sem representação. Dos produtos da industria cultural aos brinquedos, Hildebrando tangencia submundos, juntando o kitsch ao erótico, numa deliciosa libertinagem de conceitos. Kandinsky evocara a realidade da cor e da expressão por uma lógica interna, ao que, Hildebrando responde com a aparência visível das coisas, dos fetiches. O artista também se coloca atento, repetidamente, às implicações relativas ao estático e ao que se move. A recorrente escolha por pinturas em seqüência desestabiliza a retidão das observações. Corações mudam de posição em técnicas holográficas, modelos posam com sutis alterações da pose em pinturas seqüenciais, prédios modulares são desfeitos por implosões. O sublime, a subjetividade, a autonomia da arte, o cinema são misturados numa ampliação estridente de referências. Alinhavados, todos, por assombros. Será que tudo lhe interessa?

A série de janelas que Hildebrando de Castro nos apresenta, mostra-nos o resultado de um assombro: a dança de luzes e geometria num prédio em Brasília. Brasília, território utópico, criado pelo traço dos arquitetos, tornado possível pela engenharia. Num fim-de-século, cujas palavras de ordem são "desterritorialização", "deslocamento", a pintura figurativa de efeitos fotográficos, a partir de um prédio modernista funda territórios utópicos. Brasília, cidade inventada. Pintar Brasília é ratificar o simulacro. Refletimos, assim, que a geometria, passados os arroubos do dogmatismo estéril dos anos 1950, ainda nos impulsiona a refletir sobre a presença de formas liminares, entre o contingente e a busca do miraculoso para prazenteira atividade do pintor. Janelas abertas. O brise-soleil. A geometria apresentada por Hildebrando de Castro cria uma espécie de armadilha, onde aos poucos somos realocados para o lugar do observador das cidades, das sombras empreendidas pelas construções de pedra e cal.

Participantes de distintos momentos e localidades da arte brasileira, Hildebrando de Castro e Geraldo de Barros trazem, na referência geométrica, conceitos ampliados de arte e racionalidade. Geraldo de Barros, ícone do concretismo paulistano, produziu as fotoformas, ainda em fins dos anos 1940. Assim, suas fotografias geram conceitos deslocados para época, porém que se tornaram mais evidentes com o passar dos anos. O uso da fotografia para intentos abstratos, seria possível? Ao mesmo tempo, os ideais construtivistas nas fotoformas cedem lugar à imagem, tão combatida por esta mesma vanguarda. O que unifica as observações dos dois artistas são as frestas que, iluminadas, criam uma espécie de prenúncio positivo, acendendo o racionalismo com uma característica tropical: o sol. Assim, a luz invade as frestas de detalhes arquitetônicos, de grades, esquadrias clicadas pela observação de Geraldo de Barros e pintadas sobre as telas de Hildebrando de Castro. Transformam-se realidades em registros, pendulando entre pintura e fotografia.
Na série de janelas, de Hildebrando de Castro, podemos observar a beleza de uma espécie de alvorada, onde a presença do sol anuncia um passado tropicalista, aceitando hibridações, misturas de crenças, territórios conflitantes e contraditórios. O sol tropicalista que iluminara as bancas de revista nos fazendo ver lindonéias, macabéas, caras de cavalo.
 
Com produção eminentemente ligada à pintura figurativa, Hildebrando de Castro nos coloca este outro caminho. Em vez de desistir, de decretar a morte, de se esconder na subjetividade do expressionismo, a pintura de Hildebrando de Castro aceita a técnica do disfarce, empreende o ilusionismo. O elemento tão valorizado pela arquitetura modernista – o brise soleil - que Le Corbusier estimulara para solucionar a exposição ao sol torna-se protagonista. Hoje, a geometria volta a nos fazer refletir.

Dos reflexos da pintura, uma parábola de Nietzsche volta a nos instigar. Desterritorializado, deslocado de sua pátria, Zaratustra foi para a montanha, alimentando-se de sua autonomia. Porém, depois de trinta anos, numa certa manhã, o que o faz rever seus dogmas foi, justamente, a aurora. Nas pinturas de Hildebrando de Castro, esta mesma informação sub-reptícia faz com que a anunciação se dê: a presença  do sol. Anuncia-se um território libertário. O artista resolve pintar, enquanto as palavras de Zaratustra ecoam a sentença: "Ó grande astro! que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas?".

Marcelo Campos – Outubro, 2010.