Texto de Marcelo Campos (2010)

A Vulnerabilidade dos Corpos
por Katia Canton (2008)

Entrevista do artista a
Maria Alice Milliet (2004)

O Avesso do Coração Catálogo Banco do Brasil

Insensato Coração
Catálogo Banco do Brasi
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A VULNERABILIDADE DOS CORPOS
por Katia Canton

Hildebrando de Castro sempre se interessou por corpos—corpos em suas superfícies e pedaços, seus desdobramentos e órgãos, suas camadas e tecidos, suas imperfeições.  

No decorrer do tempo, articulou esse seu interesse desenvolvendo uma espantosa destreza técnica. Auto-didata, o artista exibe grandes desenhos feitos com pastel.

Com talento e curiosidade renascentistas, Hildebrando seguiu a trilha de seus próprios problemas artísticos e, conforme a percorria, ampliava os instrumentos de sua linguagem. Vivendo em Nova York, passou a pintar com tinta a óleo de parede, expandiu seus jogos de brancos, pretos e cinzas, passou a desfocar imagens.

Hoje, em seu ateliê em São Paulo, ele mostra como voltou a trabalhar com o pastel.

À primeira vista, os bonecos coloridos parecem comentar de forma bem humorada uma infantilização geral da vida adulta. Afinal, nunca se viram tantos parques temáticos, programas de entretenimento que parecem resgatar um eterno espírito lúdico, objetos de design que transformam todo tipo de material funcional em brinquedinhos divertidos.

De fato, existe humor na obra de Hildebrando, mas esse é um humor negro. No mínimo, é um humor repleto de ferocidade crítica, apontando certeiramente para o estado de banalização em que tudo parece imerso.

O artista aponta a arma da arte para a ferida de uma sociedade em que a infantilização do adulto se equiparou à erotização precoce da infância. E onde nada escapa à mercantilização.

Aqui, bonecos alargados em grandes dimensões e, ao mesmo tempo, descontextualizados sobre o branco do papel, são mergulhados em desconfortáveis ritos de passagem(1).

É através da dor ou do prazer, demarcados performaticamente sobre peles de superfícies plásticas, que esses seres adquirem uma estranha humanidade.

Um boneco com ar tradicional, boné vermelho, camisa rosa e bermuda azul abaixada, faz sexo anal com um veadinho, quase sorridente, que estiliza o personagem Bambi. O cenário—arvorezinha florida, graminha e plantas—parece de glacê, feito para decorar um bolo de festa de criança. O susto demora o tempo que o olho leva para notar o ato sexual, quase embutido nessa cena que parecia tão pueril. 

Um bonequinho bebê, desses que damos corda para vê-lo engatinhar, torna-se bem mais sinistro à medida que é desenhado sem a roupinha, o corpo revelado com suas perfurações, deixando à mostra os mecanismos das ferragens.

A Barbie, boneca-emblema da beleza feminina, ainda que inatingível em suas proporções reais, aparece aqui com uma das pernas substituídas por uma prótese metálica, seu corpo sustentado por muletas. Mesmo assim, ela continua sexy, com seu vestidinho verde curto e justo, realçado pelo cinto cor de rosa.

Finalmente, o artista junta dois ícones da mídia, num ritual sado-masoquista. A Tiazinha, ex-personagem de programa de auditório, com seu biquíni mínimo, ressaltando as formas curvilíneas e avantajadas, máscara nos olhos e chicote em punho, dirigi-se ao personagem Tinkie-winkie, considerado o mais afeminado do grupo dos Telletubies (3).

Essas narrativas estão todas imersas em um belo e perturbador cenário, onde fotos ganham movimento, grandes desenhos acompanham versões tridimensionais e miniaturizadas de seus conteúdos, brincando com escalas e revelando apuro técnico e pluralidade nas versões dos acontecimentos.

Situações surpreendentes, em que serem inanimados são carimbados pelo sexo ou pelo sangue, pela morte ou pelo desvio, pela ambigüidade ou pela falta, celebram esse sentir pós-humano, a que o filósofo italiano Mario Perniola se refere:

(ele) tem seu ponto de partida no homem, em seu impulso para o artificial, que o constituiu como tal, separando-o dos animais, em sua vontade de fazer coincidir a máxima virtualidade com a máxima efetividade (como no dinheiro), em sua irredutível tendência para uma experiência excessiva (4).

Os bonecos de Hildebrando de Castro são todos intoxicados pelo excesso. Mergulhados em sua extrema ambivalência, eles são ao mesmo tempo impessoais, pois possuem corpos disfuncionais, cuja utilidade primeira—entreter crianças—é subvertida por uma inversão de papéis, e ao mesmo tempo, incrivelmente sedutores. Perniola chama esses objetos de corpos sem órgãos (5).

O corpo sem órgãos, que não pertence a nenhuma vontade, que não obedece a nenhum projeto, que está livre de qualquer vínculo, parece diluir-se num fluido que não tem nada de vital ou de espiritual...não é nem uma experiência, mas sim um experimento que só dá certo quando toda experiência subjetiva se tornou impossível: não é o meu corpo que alça vôo num êxtase, tampouco o seu...É justamente este sentir neutro de um corpo que não pertence a ninguém, mas cuja sensibilidade não nos é acessível, que o torna algo sempre disponível, a ponto de suscitar uma excitação infinita (6). 

São Paulo, setembro 2008.

Notas:

1- de acordo com Manfred Lurker, autor de o Dicionário de Simbologia, “ ritual de passagem em um termo cunhado em 1909 pelo etnólogo frances Arnaold van Gennep para designar analogias estruturais em torno de nascimento, iniciação, casamento, morte, etc. Seu objetivo comum é asseguar a passagem de uma pessoa para um novo estágio da vida (SP, ed. Martins Fontes, 1997, pg. 604).
2- o artista acredita que a Barbie seja de fato uma mãe solteira.
3-trata-se de um programa britânico, dirigido a crianças bem pequenas, em que os personagens são caricaturais e repetem constantemente suas ações, para ajudá-las a memorizar situações.
4-pg. 47 do livro O Sex Appeal do Inorgânico. SP: Studio Nobel, 2005.
5-o conceito de “corpo sem órgãos” aqui tem sentido diverso do termo utilizado por Gilles Deleuze, a partir de Antonin Artaud, que se referia a uma porosidade e uma plasticidade que ultrapassariam os limites biológicos do corpo.
6- ver as pgs. 49 a 51 do livro O Sex Appeal do Inorgânico. SP: Studio Nobel, 2005.