Texto de Marcelo Campos (2010)

A Vulnerabilidade dos Corpos
por Katia Canton (2008)

Entrevista do artista a
Maria Alice Milliet (2004)

O Avesso do Coração Catálogo Banco do Brasil

Insensato Coração
Catálogo Banco do Brasi
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O Avesso do Coração

“Comigo / a anatomia / anda errada. / EU sou todo coração”  Maiacóvsky
Símbolo da paixão, signo do sentimento, o coração assoma em nossa memória como a mais perfeita metáfora da emoção. Ao trazer seus corações de pastel para o Centro Cultural Banco do Brasil, Hildebrando de Castro deixa transparecer o que neles existe de instigante -  e por isso mesmo paradoxal: ao questionar a paixão, o artista transfere ao espectador as várias “leituras” decorrentes desses pastéis mais que perfeitos. Desses corações que sinalizam a razão por trás da explícita emotividade.
O pastel – a giz, a lápis, a óleo – é uma técnica que permite fixar o desenho no papel e mantê-lo intacto no tempo, à semelhança da pintura.  São pinturas esses pastéis de Hildebrando, isto é, de tão perfeito o acabamento que levam o espectador a confundi-los, como se pinturas fossem.  Assim, “pintura com pastel” é a melhor maneira de enquadrar suas obras. O artista tem um modo único de usar esta técnica, um jeito especial de pressionar o pastel sobre o suporte – o que deixa a marca uniforme tanto no tom quanto na intensidade – imprimindo nesses trabalhos um “ar de pintura”. Pintura é, também, tudo o que parece pintura.
“O estilo é o homem.”, já nos dizia o velho Buffon. E o estilo de Hildebrando, sua forma muito particular de captar o mundo, continua em vigor e plenitude nos seis pastéis preparados especialmente para esta mostra.  Agora não mais ocupando todo o campo do papel com seu denso, quase sombrio cromatismo.  Esses corações de sangue pisado, fechados em vinho, estão soltos no suporte e respiram sobre o branco do papel, como se pulsassem.
Desenhista de traço altamente requintado, Senhor absoluto do figurativo dentro do expressionismo, Hildebrando de Castro passou a maior parte de sua vida debruçado sobre seus desenhos, reflexos do lápis de cor da infância – e os últimos 17 anos foram inteiramente dedicados aos trabalhos em pastel.  Além do apuro formal, uma das marcas por excelência desse pernambucano de 37 anos, sobressai a contestação presente em toda a sua trajetória – do posicionamento crítico frente à sociedade de consumo, que perpassa seus grafismos anteriores a 1986, á postura hierática de sua “pintura” figurativa a partir daí, quando a luz e o enquadramento de suas composições remetem à arte sacra e a viram pelo avesso.
É exatamente um meditar sobre a paixão o que se depreende dos trabalhos aqui expostos, onde Hildebrando retoma o recorrente coração (eucarístico?) de outras fases para ungi-lo como [único protagonista desta série regida pela emoção. É uma metáfora deslavadamente assumida a desses corações – quase-ícones.  São corações mesmo, esses corações – e com toda a força de seus signos: mescla de arrebatamento e de um voltar para dentro de si. O que não deixa de ser a forma mais perfeita de se voltar para o outro, no sentido de entrelaçamento, de re-ligare – a religião traduzida em sua essência.

Centro Cultura Banco do Brasil