Texto de Marcelo Campos (2010)

A Vulnerabilidade dos Corpos
por Katia Canton (2008)

Entrevista do artista a
Maria Alice Milliet (2004)

O Avesso do Coração Catálogo Banco do Brasil

Insensato Coração
Catálogo Banco do Brasi
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Hildebrando de Castro

Out-Door
Até por volta de 1986, a obra de Hildebrando de Castro, mais gráfica que pictórica, bem próxima da cartazística, do cartoon ou do quadrinho, era essencialmente crítica em relação à sociedade de consumo. O espaço doméstico invadido pela parafernália eletro-eletrônica.  Cidade Grande:  “caixas de morar”, o ronco de um avião, solidão, droga, homens-objetos-feras. Imagens falantes, gritantes, discursivas. O estilo é cortante, elétrico, veloz, fragmentário.

In-Door
Hoje: cortinas de veludo, almofadas imitando pele de onça, sapatos de pelúcia, lingeries, colares. Do mobiliário restou uma solitária cadeira que serve de trono para um anjo endiabrado. Na parede, entre as cortinas, o crucifixo, um Cristo de gesso. No peito dele, dela reluz o coração eucarístico. Não há portas nem janelas. O mundo lá fora é como se não existisse.  Mas, afinal, que espaço é este: casa, bordel,  teatro, museu de cera?

Face e Contra-Face
O grande cartaz publicitário ajuda a camuflar o terreno baldio, as zonas de prostituição, a favela. Na face visível do out-door, o mundo da fantasia e do faz-de-conta. Na contra-face, a dura realidade social. Hildebrando tem sua atenção voltada para aquilo que a sociedade recalca ou reprime, seus “espaços cegos”. Recria em seus quadros personagens que poderiam habitar estes territórios marginalizados, comunidades-párias, o submundo dos desqualificados, aleijados, derrotados. Decadência. Um universo que não é muito diferente daquele que encontramos nas fotos de Diane Arbus, no teatro de Nelson Rodrigues ou nos filmes de Fasbinder, Herzog, Wim Wenders ou Buñuel.

Verso
Com uma das mãos segura o terço à altura do seio desnudo, com a outra se masturba. Quem é essa mulher sem rosto: freira, prostituta ou apenas a dona-de-casa insatisfeita?  Hildebrando toma como modelos, atrizes, bailarinas, transformistas, profissionais liberais, seus próprios amigos.  Prepara o cenário, escolhe os tecidos e adereços, estuda a luz e a sombra, tendo na memória, quem sabe, pinturas de Caravaggio ou Georges de La Tour, a pintura penumbrista espanhola, estampas religiosas. Fotografa. Só então, com as fotos à mão, começa a executar seus enormes pastéis. Ao final da operação, temos imagens mórbidas, doentias, alguns diriam abjetas. Documentário perverso de um teatro privado, intramuros, marcado por obsessões sexuais e religiosas. Rituais fantasmagóricos, de sabor expressionista. A loucura e a morte parecem rondar estes rostos-máscaras, estas mãos que desenham, com uma gestualidade excessivamente retórica, o seu próprio drama.
A anã posa, toda lânguida como se fosse Madame Recamier. Duas mulheres aparecem mumificadas. Simulacros goiescos ou magritianos. A velha senhora, com ares de cafetina satisfeita, é transformada em sereia, longe do mar. A atriz feliniana oferta seios, concupiscente, enquanto em primeiro plano, um efebo nos encara como que buscando aprovação para o ato incestuoso. São figuras repelentes, corpos derruídos, erodidos pelo tempo, carnes macilentas. Nenhuma sensualidade. Ao contrário: estas imagens podem ser vistas como uma meditação sobre a morte do corpo, seu apodrecimento.

Reverso
Impossível não se deixar envolver pela beleza estranha destes quadros. Técnica e formalmente são obras admiráveis, que revelam o virtuosismo do autor. Estas imagens revelam uma visão de mundo particularíssima, configuram um universo absolutamente pessoal, o que não quer dizer intimista ou confessional.  É um universo confabulado, teatral. Invenção pura. São imagens convincentes, impositivas. Eu diria mesmo que nestes quadros, lirismo sem sentimentalismo e que o autor demonstra por seus personagens compreensão sem compaixão. Certa vez escrevi, depois de ler Henry Miller: dizem que ela (a mulher, a pintura) é feia e ultrajante. Eu a vejo linda. Tem seis dedos, um olho só e manca de uma perna. I Love her.
George Bataille, entre outros autores, demonstrou a existência de elos de ligação muito fortes entre os excessos místicos e os excessos eróticos. À sua época, a torsão arrogante e entumescida das colunas do baldaquino da igreja de São Pedro, em Roma, foi vista como uma espécie de ereção formal.  O êxtase percorre todo o corpo de Santa Tereza, esculpida em mármore pelo mesmo Bernini, transformando o panejamento em ondulações gozosas.
Hildebrando de Castro, ao contrário, parece recalcar o erotismo latente em sua obra, mediante o emprego de técnicas litúrgicas de pintar.  Estaria mais próximo do jansenismo religioso de um Philippe de Champaigne que da sensualidade de Ticiano, Rubens ou Renoir. Algumas das imagens por ele criadas (a pietá bergmaniana, São Sebastião ou quando mostra os próprios pés como se fossem de um crucificado) são decididamente ascéticas.  Manipula diversos arquétipos da pintura sacra - composição, enquadramento, distribuição de personagens na cena, iluminação, etc. As obras resultam solenes, graves como obras de museu, impondo ao espectador uma atitude de quase reverência. Se existe algo de escandaloso em sua obra atual não é o erotismo, mas o sentimento religioso que as anima.

Frederico Morais